
O calor industrial representa cerca de 25% do consumo global de energia, dos quais 80% provém de combustíveis fósseis. O resultado? Uma significativa emissão de CO₂ por ano – mais de 8 gigatoneladas - e uma exposição da indústria a custos energéticos elevados e preços voláteis.
Encontrar uma solução foi o que motivou João Pedro Freitas e Vicente Portela da Silva, dois estudantes da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). O projeto Latent Energy Systems foi o grande vencedor da 12ª edição do iUP25k – Concurso de Ideias de Negócio da Universidade do Porto. Os alunos são orientados por Adélio Mendes, professor na FEUP, e Tânia Lopes, investigadora na mesma faculdade.
“O projeto dedica-se à descarbonização do setor de calor industrial, propondo uma bateria térmica inovadora que armazena eletricidade renovável, produzida localmente ou proveniente da rede, e fornece calor quando a indústria precisa”, explicam os inventores. As baterias térmicas pensadas por esta equipa fornecem, assim, “uma alternativa sustentável às caldeiras convencionais a gás natural, possibilitando armazenamento e fornecimento de calor sem emissões e a baixo custo”.
Para a equipa, o iUP25k foi um “excelente ponto de partida”, que lhes permitiu saltar do ambiente académico para uma perspetiva mais orientada para o mercado. A cereja no topo do bolo foi conquistar o primeiro lugar e, com ele, veio “uma motivação extra e a credibilidade necessária para levar o projeto em frente e atrair os parceiros certos”.
Além do prémio monetário, a equipa terá acesso à School of Startups (Foundations e Entrepreneurs) da UPTEC, para aprofundarem os conceitos e ações de mercado, algo que consideram “vital para transformar a ideia num negócio escalável”. O prémio em dinheiro será canalizado para “custos operacionais de arranque, como o desenvolvimento da identidade de marca, ações de disseminação e consultoria legal para a futura constituição da empresa”.
A equipa está focada em concluir a integração do protótipo que já têm iniciada num edifício do campus da Sonae, o que lhes permitirá validar a tecnologia em ambiente real. “Em paralelo, vamos avançar com o desenvolvimento e construção do nosso MVP (Produto Mínimo Viável) com uma capacidade de armazenamento de 150 kWh. Este será o passo intermédio crucial para demonstrar a viabilidade do sistema antes de escalarmos para as potências de larga escala que o mercado industrial exige.”, concluem.
Impulsionar a inovação em oncologia e combater alguns dos cancros mais agressivos

No segundo lugar desta edição do iUP25k ficou o projeto LION Therapeutics, desenvolvido por cinco investigadores do LAQV/REQUIMTE, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP): Sara Reis, Ivo Dias, Xavier Correia, Hugo Almeida e Maria Cardoso.
A LION está a desenvolver uma terapia de nova geração para o cancro do pâncreas, um dos tipos de cancro mais letais e com opções terapêuticas limitadas – mas que também pode ser utilizada noutros cancros igualmente difíceis de tratar. Esta tecnologia pioneira “atua sobre o recetor da vitamina D através de moduladores baseados em ácido litocólico”, explicam os investigadores. A abordagem combina “design molecular inovador com processos de síntese escaláveis, permitindo terapias mais seguras, com elevado potencial de aplicação clínica e industrial”, acresentam.
“Hoje o cancro pancreático ainda é uma sentença e nós queremos transformar o futuro das suas terapias” – referiram durante o momento de pitch. Assim, consideram que a distinção no iUP25k foi um “importante reconhecimento da qualidade científica, do potencial de inovação e da relevância desta tecnologia”.
Os prémios serão aplicados em duas vertentes complementares: o pecuniário servirá para reforçar a estratégia de desenvolvimento pré-clínico, “apoiando estudos biológicos adicionais, a validação farmacológica da abordagem terapêutica e proteção da propriedade industrial”, referiram. A equipa também terá acesso ao School of Startups e a consultoria especializada em empreendedorismo – providenciada pela Astrolábio, parceira desta edição do iUP25k – o que permitirá fortalecer as competências da equipa em negócio, estratégia e valorização tecnológica.
A equipa vai continuar a validação biológica da tecnologia em modelos celulares de cancro pancreático, de modo a aprofundar a compreensão do seu mecanismo de ação. Ao mesmo tempo, vão continuar à procura de oportunidades de financiamento e parcerias estratégicas que permitam “acelerar a transição para estudos pré-clínicos mais avançados, de modo a gerar a evidência científica necessária para valorizar a tecnologia e preparar futuras negociações de licenciamento e desenvolvimento industrial”, concluem.
Uma solução baseada em leite materno para avançar a cicatrização de feridas difíceis

A fechar o pódio desta edição do concurso de ideias da Universidade do Porto ficou o projeto Matera, um “produto inovador inspirado no potencial regenerativo do leite materno e destinado ao tratamento de feridas cirúrgicas de difícil cicatrização em doentes oncológicos”. A explicação é de Carla Abreu, investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e responsável pela ideia.
Ao contrário das soluções atualmente disponíveis, que se focam principalmente na gestão e proteção do local da ferida, o Matera “pretende ir mais além”, explica Carla Abreu, “promovendo ativamente a regeneração dos tecidos e ajudando o organismo a retomar o processo natural de cicatrização”. Estas feridas podem permanecer abertas durante semanas ou meses, aumentando o risco de infeção e obrigando a muitas consultas, tratamentos e, por vezes, novas intervenções cirúrgicas.
O Matera pretende, assim, “reduzir o tempo de recuperação, a necessidade de cuidados prolongados e também o impacto na qualidade de vida dos doentes”, utilizando componentes bioativos do leite materno integrados num hidrogel avançado, explorando assim um recurso biológico feminino acessível, mas atualmente subvalorizado.
Para Carla Abreu, o 3º lugar no iUP representa uma importante validação externa para o projeto Matera. “Embora a ideia já venha a ser discutida em ambiente académico, o reconhecimento por parte de um júri reforçou a confiança no seu potencial de inovação e real impacto clínico”, diz a investigadora que regressou recentemente à academia após vários anos na indústria. O prémio será utilizado para preparar candidaturas e identificar oportunidades de financiamento para gerar a prova de conceito experimental da tecnologia. Na School of Startups pretende “adquirir competências em empreendedorismo e validação de negócio”.
A curto prazo, o projeto Matera vai estar focado na consolidação do plano científico e experimental do projeto e na submissão de candidaturas a programas de financiamento. “O objetivo será obter os recursos necessários para o desenvolvimento experimental do projeto, bem como para a realização de estudos pré-clínicos, criando condições mais favoráveis à constituição de uma start-up e captação de investimento privado”.
"O iUP25k está em linha com o compromisso da Universidade do Porto com a inovação"
Realizada no passado dia 2 de junho, no Auditório da UPTEC Asprela I, a final do iUP25k 2026 fechou com chave de ouro mais uma edição de uma iniciativa que é já vista como um dos mais emblemáticos eventos de promoção do empreendedorismo na instituição. Ao longo de 12 edições o iUP25k já recebeu mais de 440 candidaturas e atribuiu um total de 300 mil euros em prémios.
Este ano, o concurso contou com o apoio da Caixa Geral de Depósitos, da Astrolábio e da UPTEC – Parque de Ciência e Tecnologia da U.Porto e o júri foi constituído por Abel Reis (Astrolábio), Rita Matis (Faber VC) e Susana Pinheiro (UPTEC).
Recorde-se que, durante três dias, as equipas participaram no BIP Ignition, que lhes permitiu não só obter consultoria especializada e aconselhamento sobre como melhorar os seus projetos, mas também acompanhamento dos pitchs para a sessão final. Esta tarefa esteve a cargo da Astrolábio.
“Sei que os pitches foram todos de extrema qualidade e felicito todos por isso. Fazer estas apresentações permite-vos chegar a mais gente, e isso é muito importante” referiu Pedro Rodrigues, Vice-Reitor da U.Porto para a Investigação e Inovação, no momento em que anunciou os vencedores.
Pedro Rodrigues acrescentou ainda que “o iUP25k é uma das iniciativas da Universidade do Porto em linha com o compromisso da instituição com a inovação”. O Vice-Reitor referiu ainda que a U.Porto é “um ecossistema muito alargado, que faz muitas coisas e tem muitas portas abertas”, incentivado as equipas a estarem atentas a todas as oportunidades que possam surgir. “É importante que conheçam a Universidade como um todo e que isso incentive o surgimento de novas ideias, projetos e empresas com impacto”, concluiu.
Esta edição do iUP25k contou com o apoio da Caixa Geral de Depósitos, da UPTEC e da Astrolábio.






