
Apesar de os antibióticos serem considerados um pilar da medicina moderna, a sua eficácia está ameaçada pelo aumento da resistência aos antimicrobianos (AMR). Estima-se que, só em 2019, tenham ocorrido perto de 4,95 milhões de mortes associadas às AMR. Uma equipa coordenada por Maria Emília Sousa, docente e investigadora da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP), está a trabalhar numa solução para este problema numa perspetiva “OneHealth” ou, em português, "Uma Só Saúde".
Uma coisa é certa: a AMR irá representar uma crise de saúde pública, “cujo agravamento terá impactos dramáticos no plano individual e social”, refere a investigadora. Isso irá forçosamente afastar ainda mais a humanidade do cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), “particularmente aqueles que se concentrem em saúde e bem-estar, redução da pobreza, segurança alimentar, meio ambiente e crescimento económico”, explica.
Resolver este problema requer uma abordagem “OneHealth”, acredita este grupo de cientistas. Ou seja, “combater a AMR de forma eficaz exigirá uma ação concertada em todos os setores, dada a inter-relação da saúde humana e animal, produção vegetal, segurança alimentar e meio ambiente, quer na evolução do problema da AMR quer nas soluções para esse problema”, dizem.
Inspiração vinda do mar
Para dar resposta a esse desafio, uma equipa multidisciplinar da Universidade do Porto (que inclui cientistas da FFUP mas também do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS)), inspirou-se em produtos marinhos “como fontes promissoras de novos quimioterápicos” e colocou a hipótese de obter derivados desses produtos marinhos antimicrobianos que fossem mais simples e mais fáceis de sintetizar em larga escala”.
O objetivo foi “obter derivados sintéticos de alcaloides marinhos que tivessem já demonstrado atividade antimicrobiana”, explica Maria Emília Sousa. Mais especificamente, pretendem “obter por síntese numa só etapa, e a partir de precursores baratos e amigos do ambiente (aminoácidos), compostos que sejam inócuos para os seres humanos, mas altamente eficazes na inibição de bactérias patogénicas”. Estas substâncias já mostraram atuar também em modelos ambientais, como por exemplo contra patógenos de aquacultura.
Nesta fase dos derivados de produtos marinhos, além de Maria Emília Sousa estiveram envolvidos os investigadores Solida Long, Madalena Pinto, Diana Resende, Anake Kijjoa, Paulo Costa, Joana Silva, Fátima Nogueira reunindo as instituições da Universidade do Porto (FFUP, ICBAS, Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR)) e também do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa (IHMT-UNL).
Depois, na sequência do projeto, a equipa descobriu um produto inédito, com um espectro de ação mais alargado, investigação na qual estiveram envolvidos os cientistas: Emília Sousa, Ana Rita Neves, Marta Correia da Silva, Joana Freitas da Silva, Fernando Durães, Paulo Martins da Costa, Eugénia Pinto, Elisabete Geraldes, Filipe Mergulhão, Marisa Gomes, Rita Santos. Além das instituições referidas acima, nesta parte houve ainda envolvimento da Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP) e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).
Prevê-se que seja viável a produção em larga escala
Em ambos os projetos a equipa tem vindo a realizar contactos regulares com várias empresas farmacêuticas e prevê que “seja viável a produção em larga escala, uma vez que os agentes desenvolvidos, inspirados em produtos naturais, são obtidos por síntese química recorrendo a métodos industriais conhecidos e com possibilidade de transposição de escala”, referem.
Essa síntese química de compostos inspirados em compostos naturais “mostrou ser vantajoso à recoleção dos organismos do meio natural e à extração dos compostos ativos, não só por ser mais sustentável, mas por facilitar a obtenção de quantidades adequadas e evitando a exaustão dos recursos naturais”, explica Maria Emília Sousa.
A introdução de um fármaco na terapêutica é um processo que chega a demorar até 10 anos e custa milhões de euros. Como refere Maria Emília Sousa, “o modelo de negócio que se adequaria à disponibilização deste produto/serviço no mercado terá que contar com a parceria de empresas que tenham interesse em avançar com ensaios clínicos” e, eventualmente com o licenciamento das patentes.
O processo de proteção da propriedade intelectual desta invenção e transferência de tecnologia tem sido apoiado pela U.Porto Inovação. Uma das tecnologias já está concedida em vários territórios europeus (via patente unitária europeia), incluindo Portugal, e tem um pedido de patente nos Estados Unidos. Neste momento, a equipa está na fase experimental ou pré-clínica e, por isso, ativamente à procura de investimento que lhes permita avançar no combate a este problema que provoca milhões de mortes em todo o mundo.






