Nasceu em Luanda, viveu na África do Sul, tendo depois regressado a Portugal, escola primária em Freamunde e, depois, estudos num seminário em Guimarães. O jovem Luís Filipe Antunes, apesar da sua “grande admiração por mecânica e motores”, estava longe de imaginar que seria investigador. “Queria ser mecânico de automóveis. Tinha uma curiosidade enorme por saber como todos aqueles componentes juntos funcionavam”, diz.

A investigação veio anos mais tarde. O percurso de Luís Filipe Antunes começou na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) onde foi monitor. Seguiu-se uma passagem pela Universidade do Minho como Assistente Estagiário e pela Faculdade de Economia da U.Porto (FEP) como Assistente. Em 2002 regressou à “casa-mãe”, a FCUP, mais especificamente ao Departamento de Ciências de Computadores como Professor Auxiliar. No ano anterior foi o escolhido na 1ª edição do prémio "Distinção em Inovação em Ciência e Tecnologia" da Universidade do Porto. 

A sua tese de doutoramento foi em Complexidade Computacional, ou seja, “tentar classificar os problemas mediante os recursos computacionais (tempo, espaço, paralelismo entre outros) necessários para os resolver”, explica. Durante esse período esteve nos Estados Unidos no centro de investigação DIMACS (Discrete Mathematics and Theoretical Computer Science), na NEC Research como investigador e com uma breve passagem por Chicago. Esteve também em Amsterdão, no Centro de Investigação CWI como post-doc durante um ano. 

“Nessa altura o meu orientador de doutoramento, Lance Fortnow, sugeriu-me redirecionar um pouco a minha investigação para criptografia pois teria mais possibilidade de conseguir financiamento em Portugal”, conta. E o académico acabaria por ter razão. “Como sempre”, refere Luís Filipe Antunes. 

Esse acompanhamento, aliado aos seus sonhos de infância, aos diferentes países onde cresceu e também à “diversidade de centros de I&D, países e culturas, moldaram claramente” a sua atuação enquanto investigador. Além disso, Luís Filipe Antunes diz que este percurso, incluindo a passagem pelo seminário, moldou em si “uma personalidade humanista e preocupada com os direitos fundamentais do Homem”. 

É também por isso que, nos dias que correm, as suas áreas de investigação têm sido a cibersegurança e a proteção de dados pessoais, tendo começado, logo em 2002, a colaborar com a Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD), pois “já antecipava o impacto que a tecnologia teria no direito fundamental à privacidade. Mais tarde, entre 2021 e 2023, foi inclusivamente o Encarregado de Proteção de Dados da CNPD. 

"De vez em quando temos que "sair da caixa" e da zona de conforto, para ter melhores condições para inovar"

Par a par com a carreira de investigação, Luís Filipe Antunes também enveredou pelo caminho do empreendedorismo, estando na génese de três empresas spin-off da Universidade do Porto: HealthySystems, Adyta e TekPrivacy. 

Na sua opinião, o mais difícil na conciliação destes dois mundos – académico e empresarial - é “convencer os pares na Universidade que a transferência de tecnologia e a criação de valor são uma das componentes da carreira universitária”, explica. Assim, Luís Filipe Antunes optou por uma solução que “pode ser interessante para os docentes que fazem investigação e inovação em áreas aplicadas” e, atualmente, faz toda a sua investigação nesse contexto empresarial, mais especificamente na TekPrivacy, embora assuma ter um carinho particular pelas três empresas.

“Na TekPrivacy o nosso objetivo é desenvolver tecnologia potenciadora de privacidade”, refere. Segundo um estudo de 2022 da União Europeia, “os dados dos europeus tinham um valor (monetização, definição de novos produtos e serviços, etc) de 19 mil milhões”, ou seja, um grande impacto económico global. Nesse estudo também é dito que “ainda não existe tecnologia que permita alavancar esse valor financeiro sem comprometer os direitos fundamentais”, explica Luís Filipe Antunes.

A TekPrivacy tem, então, vindo a desenvolver esse tipo de tecnologia, e os pilotos que têm trabalhado fazem a equipa acreditar que “está no caminho certo”, afirma o docente. “Tem sido muito gratificante acompanhar este projeto pois é claramente inovador em muitos aspetos no panorama nacional e internacional. Tenho três estudantes de doutoramento com bolsa em ambiente empresarial da FCT, tenho 2 projetos I&D&I do P2030 com um valor 5 vezes superior aos projetos da FCT e, simultaneamente, a Tekprivacy emprega 25 profissionais altamente qualificados”, explica.

Na prática, a TekPrivacy acabe por ser um centro de I&D&I que endereça problemas reais, com um conjunto de colaboradores altamente qualificados e vários projetos de mestrado e doutoramento, e com um objetivo claro de criar valor para as gerações futuras”, diz Luís Filipe Antunes, acrescentando que de vez em quando, é “necessário "sair da caixa" e, da zona de conforto, para ter melhores condições para inovar.”

"Acredito que os grandes desenvolvimentos vão surgir na fronteira entre áreas científicas"

Quando questionado sobre os seus maiores sonhos profissionais Luís Filipe Antunes não hesita em afirmar que o maior deles é “reforçar os direitos fundamentais do Homem num mundo cada vez mais digital”. O docente e empreendedor acredita que, nesse aspeto o mundo que deixará aos filhos será pior do que o mundo que herdou dos pais, empenhando-se diariamente em combater isso.

Na sua opinião, “ser inventor é um desafio”, mas, particularmente na Universidade do Porto, destaca a qualidade e excelência dos estudantes com quem tem trabalhado na prossecução dessa missão. Em contrapartida, vê como um entreve a existência de “silos, muitas vezes estanques, o que dificulta a investigação que cruza áreas científicas” uma vez que acredita firmemente que “os grandes desenvolvimentos científicos surgirão na fronteira entre áreas científicas”. 

Luís Filipe Antunes considera-se um académico, um docente, um empreendedor e um empresário humanista, e está nos seus planos continuar a lutar por um mundo em que a tecnologia faça mais bem do que mal e não interfira com os direitos fundamentais, alguns deles duramente conquistados. “Custa-me muito que as gerações dos meus pais e avós tenham lutado muito por um conjunto de direitos fundamentais para o ser humano e que a tecnologia os esteja a minar”, conclui. O caminho é, então, continuar a trabalhar para controlar essa maré.