As tecnologias atuais de fabrico de circuitos elétricos flexíveis utilizam materiais poluentes (como os plásticos, derivados do petróleo) ou perigosos e tóxicos (presentes em tintas condutoras). Além disso, também usam metodologias de deposição das tintas com recurso a altas temperaturas, o que é energeticamente exigente. Foi de olhos postos nesse problema que nasceu a EcoWires, o projeto vencedor da 4.ª edição do programa BIP Acceleration, iniciativa da U.Porto Inovação que visa apoiar equipas de cientistas de Universidade do Porto que queiram testar e validar o modelo de negócio da sua ideia.

Desenvolvido por Inês Freitas e Rita Martins, ambas investigadoras da Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP), o projeto EcoWires consiste numa nova forma de impressão de circuitos eletrónicos flexíveis, recorrendo a “materiais sustentáveis, seguros, económicos e que existem em muita quantidade na natureza”. É uma abordagem que “não só reduz custos como também poupa tempo e diminui o impacto ambiental”, apresenta a equipa da qual também fazem parte os docentes e investigadores da FEUP, Adélio Mendes e Joaquim Gabriel Mendes.

“Através de um processo químico simples, é possível produzir papel transparente e incorporar no seu interior materiais condutores à base de carbono, com a forma do circuito desejada pelo cliente, contribuindo assim para tornar a produção de componentes eletrónicos flexíveis mais ecológica e acessível”, acrescentam.

Além da utilização dos materiais mais sustentáveis e seguros, a EcoWires também “usa um método de impressão que deposita o material condutor e o isola automaticamente no papel transparente, numa única etapa e com um design totalmente personalizável”. Assim, esta tecnologia tem como potencial aplicação LEDs, pequenos dispositivos de armazenamento de energia, antenas NFC, sensores, localizadores GPS e outros componentes semelhantes em “têxteis, pulseiras ou materiais curvos”.

O projeto foi um dos três vencedores da final nacional do ClimateLaunchpad 2025, a mais recente edição da maior competição mundial de ideias de negócio cleantech. Agora, com a conquista do primeiro lugar no BIP Acceleration, tencionam avançar para o desenvolvimento dos primeiros protótipos, utilizando o prémio para adquirir material de laboratório que “permitirá o aprodundamento da prova de conceito da tecnologia”, dizem.

Ao mesmo tempo, vão avançar para a proteção da propriedade intelectual e, eventualmente, para a “criação de uma empresa spin-off da Universidade do Porto para a etapa de comercialização.”
 

Precisão no tratamento do cancro da mama e dos tumores cerebrais infantis

No segundo e terceiro lugares do BIP Acceleration 2025 ficaram, respetivamente, os projetos ALVA e VANTAGE 4MB. ambos focados no combate ao cancro.

 

O projeto ALVA - que venceu a edição deste ano do iUP25k, chamando-se, na altura, OnCure Therapeutics - tem o seu foco no cancro de mama triplo negativo (TNBC), a forma mais agressiva e difícil de tratar do cancro da mama.

Como refere Sandra Tavares, investigadora do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) e líder do projeto, “todos os anos, cerca de 350 mil mulheres são diagnosticadas com cancro da mama triplo negativo”. E uma vez que os tratamentos atuais, como a quimioterapia, causam efeitos secundários graves e duradouros, o projeto ALVA quer “desenvolver um novo medicamento que ataca apenas as células cancerígenas, sem afetar as saudáveis”. Isso significa menos efeitos secundários, menos sofrimento e também menos custos para os hospitais. “Mais do que tratar, queremos cuidar”, aponta a investigadora.

Quando comparada com outras soluções, as vantagens desta abordagem são claras: “por um lado, minimização de efeitos secundários que afetam a qualidade de vida das pacientes. Por outro, a redução dos custos hospitalares associados ao tratamento desses mesmos efeitos secundários”.  A equipa – da qual também fazem parte António Ribeiro (LAQV/REQUINTE) e Andreia Silva (i3S) – acredita que este projeto marca “uma mudança rumo à oncologia de precisão, com muito menos efeitos colaterais” do que a quimioterapia, o tratamento convencional para tantos cancros.

O prémio agora conquistado no BIP Acceleration será usado para avançar na investigação laboratorial e também como forma de investimento na formação da equipa enquanto empreendedores. “Vamos promover a nossa ideia em eventos e desenvolver a nossa rede de contactos com outros projetos e investidores”, explica Sandra Tavares. Paralelamente, vão continuar focadas em concluir a “validação do alvo molecular e aprofundar o trabalho de investigação.

Já o projeto VANTAGE4MB é uma plataforma in vivo que possibilita estudar melhor o comportamento do meduloblastoma, um tumor cerebral infantil extremamente agressivo.

“A nossa ferramenta biotecnológica avançada irá permitir que empresas farmacêuticas e de biotecnologia testem de uma forma mais autêntica o potencial dos seus compostos e ferramentas, aumentando a possibilidade de cura deste tumor”, explica Rui Pereira, investigador do i3S e líder do projeto.

O objetivo é que os oncologistas pediátricos utilizem e combinem “as melhores terapias personalizadas, melhorando significativamente os resultados clínicos e, assim, a qualidade e a esperança de vida dos pacientes”, explica. Esta é uma solução comparativamente melhor com outras do mercado, pois tem “menores custos associados e permite avaliar e obter mais rapidamente, e com mais precisão, a resposta específica de cada tumor infantil a diferentes terapias.

Da equipa criadora do VANTAGE4MB fazem parte também Helena Azevedo, Jorge Lima e Sofia Lamas – todos do i3s – e Maria João Gil da Costa, do Centro Hospitalar Universitário São João. Para o grupo, a conquista do terceiro lugar no BIP Acceleration é um “primeiro passo fundamental” para conseguirem transformar o projeto científico num “modelo empresarial inovador”.

O prémio será usado para acelerar a implantação da tecnologia, financiar propriedade intelectual e realizar o primeiro ensaio pré-clínico.

"Valorizar o conhecimento" produzido na Universidade.

A grande final do BIP Acceleration 2025 decorreu no passado dia 4 de novembro, nas instalações da Porto Business School (PBS), parceira desta edição. A avaliar os projetos finalistas esteve um júri composto por Rodrigo de Alvarenga, Raphael Stanzani (UPTEC) e Sofia Correia de Sousa (ANJE).

“O nosso interesse é manter de pé esta iniciativa – que já vai na quarta edição – porque queremos sempre apostar na inovação e na valorização do conhecimento produzido no nosso ecossistema”, destacou Pedro Rodrigues, Vice-Reitor da U.Porto para a Investigação e Inovação, no momento que antecedeu o anúncio dos vencedores.

Com o apoio dos parceiros, o objetivo do BIP Acceleration é, além de reconhecer e premiar, dar ferramentas a equipas de todas as áreas do saber para as ajudar a levar o conhecimento mais longe.

“A diversidade dos temas abordados pelas equipas nesta edição mostra, precisamente, que o nosso ecossistema é diverso e capaz de produzir ciência em várias temáticas. A Universidade do Porto é isto mesmo: tentar, de várias formas, valorizar todo o conhecimento que produz”, finalizou Pedro Rodrigues.

 

O BIP Acceleration 2025 teve o apoio da Caixa de Geral de Depósitos e a parceria da Porto Business School e da UPTEC.